quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

RAMPIKE
Saiu mais um número da revista canadiana RAMPIKE editada por Karl E. Jirgens, da qual faço parte do comité de redacção internacional conforme já aqui referi, assim como também já foi referido que em 2009 a RAMPIKE comemorou 30 anos de existência, um feito notável para uma revista de literatura e arte (mais ou menos) alternativa.
Este Vol. 18/Nº2 tem como tema “Re-sent Histories /L’Histoire Renvoyé” e poemas, críticas, reportagem, ficção e imagens de Richard Truhlar, John Barlow, Brian Edwards, Richard Kostelanetz, Xavier Sabater, Jean-Claude Gagnon e Derek Beaulieu, entre muitos outros, com uma excelente capa que revisita Pieter Bruegel’s numa pintura de 1562, desta vez em linguagem digital.
Para além do Canadá e dos Estados Unidos, não sei exactamente em que países esta revista com 80 páginas e um formato próximo do A-4 é distribuída, mas o preço de capa para a Europa é de apenas 3 €…
Para contactos ou pedidos de exemplares, é favor escreverem para: jirgens@uwindsor.ca

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

EN LOS OJOS DE LA POÉTICA
A minha 41ª exposição individual foi feita em Madrid, no Centro de Arte Moderno, uma galeria gerida pelo Raul Manrique e pelo Cláudio Pérez, também directores do Del Centro Editores, que se dedica a publicar livros de artista e outros com um carácter manual e sempre com tiragens reduzidas.
As obras que lá apresentei não são recentes e têm sido divulgadas neste blog, mas acontece que o convite para a exposição veio na sequência da organização do livro “IMAGINANDO LA POÉTICA”, precisamente com trabalhos dessa série.
De qualquer modo, existe uma certa autonomia entre a exposição e o livro porque, apesar de terem as mesmas características, existem trabalhos na exposição que não estão no livro e vice-versa.
Na inauguração, no dia 18 de Dezembro, sob o gélido frio de um princípio de noite em Madrid, eu e o Ángel Marcos, um actor e excelente intérprete de poesia, realizámos uma leitura de alguns dos meus poemas experimentais, uns em português, outros em castelhano. Infelizmente ainda não me chegaram as fotos dessa leitura. Mas ficam algumas da exposição, que está patente até ao dia 23 de Janeiro.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

CONFRARIA
Depois de 24 edições digitais a revista CONFRARIA sai pela primeira vez em edição impressa no Rio de Janeiro sob a direcção de Márcio-André, com Ronaldo Ferrito e Victor Pães como editores no Brasil, e João Miguel Henriques com as mesmas funções em Portugal.
Com uma entrevista a Nei Lopes e dedicando um dossier à poesia finlandesa contemporânea, a CONFRARIA apresenta críticas, pensamentos, contos, poesia verbal e também visual.
Os autores são Octávio Paz, Maria Irene Ramalho, E. M. de Melo e Castro, Ortega y Grasset, Maria do Rosário Pedreira, António Almada Guerra, Francisco Serra Lopes, Rita Dahl, valter hugo mãe, Arnaldo Antunes, Fernando Aguiar, Gonçalo M. Tavares e Bruno Santos, entre alguns outros. E o material é muito bom.
Márcio-André, de quem recebi recentemente os livros “Intradoxos” (poesia de grande inventividade) e “Ensaios Radioativos” (que reúne ensaios que o autor publicou nos últimos anos) é conhecido como “o poeta radioativo”, por ter realizado um recital de poesia na cidade fantasma de Pripyat, em Chernobyl.
Como a revista é brasileira, fica aqui um dos meus poemas publicados na mesma, dedicado a Álvaro de Sá, um dos iniciadores do Poema-Processo.
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POEMA-PROCESSO
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(Para o Álvaro de Sá)
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Escreveu os versos na folha
mas não gostou.
Amachucou
e pôs de lado.
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Tentou outra versão
que também não agradou.
Amachucou
e pôs de lado.
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Insistiu, sem conseguir
o efeito desejado.
Amachucou
e pôs de lado.
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Repisou de novo
sem resultado.
Amachucou
e pôs de lado.
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O poema teimava
em não o ser. Desanimado,
amachucou
e pôs de lado.

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Ficou sem folhas para escrever.
Mas o poema estava pronto.
Terminado.
Mesmo ali ao lado.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

IMAGINANDO LA POÉTICA
Na inauguração da minha exposição no Centro de Arte Moderno em Madrid, de que falarei mais adiante, foi feito o lançamento do livro IMAGINANDO LA POÉTICA publicado por Del Centro Editores, na colecção de poesia visual “Un Golpe de Dados”.
Nesta colecção foram anteriormente publicados os livros de Javier Seco, Emilio Morandi e de Yolanda Pérez Herreras, três amigos de longa data e companheiros destas andanças pela poética experimental.
O livro tem uma edição limitadíssima de 100 exemplares, numerados e assinados, e destina-se sobretudo a apreciadores da temática e a coleccionadores já que não tem uma distribuição “comercial”. Pelo que sei, é apenas vendido na livraria da editora e por solicitação.
É constituído por 30 poemas visuais da mesma série das obras que estão em exposição na galeria do Centro de Arte Moderno, apesar de nem todos os trabalhos que estão em exposição estarem representados no livro.
Os poemas foram realizados em 1996 e 1997 e têm como característica a interacção entre gravuras do séc. XIX, letrasset e letras em vinil desenhadas e recortadas em computador, confrontando duas linguagens estéticas com mais de 100 anos de distância entre si.
Deixo aqui alguns dos poemas visuais incluídos em IMAGINANDO LA POÉTICA. Para contactos com a editora: libreriadelcentro@telefonica.net
"A Poética Dentro da Poesia no Interior do Poema"
"Sound Sonnet"
"O Descanso do Guerreiro"
"Descobertas"
"Recusando as Novas Poéticas"
"Soneto Acerca do Erotismo"

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

POEMAS + OU - HISTÓ(É)RICOS
Já que estamos em maré de efemérides, aproveito para terminar o ano com mais uma: em 2009 fez 35 anos que publiquei o (meu primeiro) livro, “POEMAS + OU – HISTÓ(É)RICOS”, uma edição de autor feita aos 18 anos e paga com os meus primeiros ordenados. Na altura trabalhava numa agência de publicidade e, meses depois, comecei a dar aulas numa escola em Lisboa. Nesse tempo o dinheiro chegava para tudo…
São poemas de adolescência, pré-experimentalistas, bastante influenciados pelo surrealismo que estava a estudar nas Belas-Artes e do qual gostava bastante, a par das primeiras experiências de poesia visual.
Desse livro não há muito a dizer: tem 26 poemas, 64 páginas, a capa é desenhada por mim e, apesar de tudo, há um dos poemas que ainda digo com alguma frequência nas minhas performances mais “poéticas”: “O Tal Dedo”. Que vai reproduzido em baixo, junto a outros dois, para dar um cheirinho daquilo que são os “POEMAS + OU - HISTÓ(É)RICOS”…
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“O TAL DEDO”
o acto de metermos o dedo no nariz
pode ser simultâneo e coincidente
como aconteceu agora ao suicidarmos
os dois o tal dedo.
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“UM PÊLO NA GARGANTA”
ela
mostrou-me
um
pêlo
que
lhe
tinha
crescido
dentro
da
garganta
e
eu
sofregamente
mordi-o
e
cortei-o
com
os
dentes.
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“O CICLO DA PEDRA”
uma pedra rola deitada
numa cama.
em seguida rola por baixo dela
e novamente
torna a rolar-lhe
por cima.
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quer acreditem ou não
é isto o ciclo da pedra.

domingo, 27 de dezembro de 2009

POESI AV ISUAL
Depois da exposição em Madrid, do livro publicado em S. Paulo e de outro livro editado também em Madrid, dá para terminar o ano com uma efeméride: Faz 30 anos que realizei a minha primeira exposição individual.
Foi na galeria da Escola Superior de Belas-Artes, de 7 (estava quase a fazer 23 anos) a 21 de Maio de 1979, e apresentei 47 poemas visuais criados entre 1972 e 1978, conforme a lista que está em baixo.
Muitos poemas, sobretudo os primeiros, foram bastante influenciados pela obra do António Aragão, o primeiro poeta experimental que descobri e cujo trabalho me fascinou ao ponto de aos 16 anos começar a criar também poemas “visuais”. Porque na realidade comecei logo a utilizar imagens nos meus poemas, coisa que ainda não era habitual entre os poetas experimentais em meados dos anos 70.
Expor 47 trabalhos nessa altura foi uma verdadeira aventura, e apresentei a minha primeira (pequena) instalação intitulada “Socorro”, que pertence agora ao Museu de Serralves, e que era parte de um projecto mais ambicioso que nunca chegou a ser realizado. (A maqueta desse projecto pertence também ao Museu).
Fez parte da exposição aquele que é o meu trabalho mais divulgado: “Dois Dedos de Conversa”. Para além do livro “O DEDO”, já foi publicado mais de 40 vezes em revistas, catálogos e em antologias de 16 países, e foi capa das revistas “Poetry Halifax Dartmouth” (Canadá), “Axle” (Austrália) e do jornal cultural “Garatuja” (Brasil).
Em 1999 incluí a maior parte destes poemas no livro “OS OLHOS QUE O NOSSO OLHAR NÃO VÊ”, depois de serem apresentados na exposição “PO.EX: O EXPERIMENTALISMO ENTRE 1964 E 1984”, em Novembro desse ano, no Museu de Serralves.
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"A Espoleta do Último Nada", 1972
"A Cor da Cortiça", 1977
"Ensaio para uma Nova Expressão da Escrita", 1978
"Paz na Terra", 1978
"Dois dedos de Conversa", 1978

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

TUDO POR TUDO
Posso dizer que este ano termina em beleza do ponto de vista artístico: nesta última semana foi publicado o livro “TUDO POR TUDO” no Brasil, inaugurou a exposição “EN LOS OJOS DE LA POÉTICA”, em Madrid, no mesmo dia em que foi lançado o livro “IMAGINANDO LA POÉTICA”, com alguns dos trabalhos expostos e outros inéditos.
Mais tarde falarei da exposição e do livro de Madrid (e também da leitura durante a inauguração), mas por enquanto fiquemos no “TUDO POR TUDO”.
O convite partiu do poeta e agitador cultural Floriano Martins que dirige a colecção “Ponte Velha” da editora Escrituras de S. Paulo, colecção fundada por António Osório e por Carlos Nejar, um simpatiquíssimo poeta que conheci em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, em 1996. A colecção tem por objectivo divulgar escritores portugueses no Brasil, conta com o apoio da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, e já publicou obras de Ana Hatherly, Nicolau Saião, Maria Estela Guedes, Pedro Tamen, Casimiro de Brito, João Barrento, Luís Carlos Patraquim, Luiz Pacheco, Nuno Júdice, Dalila Teles Veras, Rosa Alice Branco, António Teixeira e Castro, António Ramos Rosa e Luiza Neto Jorge, entre outros.
A sugestão do Floriano é que o livro incluísse poesia verbo-experimental, poesia visual, uma entrevista e pequenos textos de outros autores sobre o meu trabalho, ao que eu acrescentei fotografias de instalações, livro-objecto, performance, escultura e fotopoesia, o que permite uma visão mais alargada daquilo que tenho feito.
A entrevista foi realizada pelo Wilmar Silva e a “fortuna crítica” é de autoria de Luís Fagundes Duarte, Paulo Cheida Sans, Natacha Narciso, J. Seafree, Alberto Pimenta, J. Medeiros, Augusto Corvacho, Carlos Mendes de Sousa e Eunice Ribeiro.
O livro tem 176 páginas, a quase totalidade dos poemas verbo-experimentais são inéditos, enquanto que muitos dos visuais já foram publicados em catálogos e em revistas. Curiosamente, e isto porque foram organizados em alturas diferentes, os poemas visuais deste livro, da exposição em Madrid e do livro com os trabalhos da exposição, pertencem à mesma série, embora nos três casos existam obras diferentes e inéditas.
Para contactos: escrituras@escrituras.com.br
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CONTRADICÇÕES
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se retraço / se refaço / se prossigo e mais não digo /
se repasso e não trespasso / se redigo e não consigo /
se me engraço e no compasso / ameaço e lá religo /
porque o faço ?/ porque traço?/
porque maço ?/ porque sigo ?
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se espero e desespero / se não quero e me redimo /
se não esmero / pois não quero / se fero, firo e afirmo /
se refiro e não confiro / largo, tiro e animo /
porque opero ?/ que tolero ?/
porque gero ?/ o que estimo ?
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se ocupo e não me culpo / se desculpo e não consinto /
se exulto e em vão oculto / se permuto e não me minto /
se não esqueço e enlouqueço / se mereço o labirinto /
porque expresso ?/ porque acesso?/
se regresso e lá repinto ?
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se envolvo e não resolvo / se promovo e mal não passo /
se osculo e sim discorro / se ocorre e não me escasso /
se parece e transparece / se na prece não me enlaço /
quem esquece ?/ que acontece ?/
porque aquece ?/ que desfaço ?
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se acorro e lá percorro / se do pranto faço encanto/
se aprovo e não recorro / e o recanto é sacrossanto /
se escorro e subo o morro / adianto e entretanto /
porque incorro ?/ porque morro ?/
se socorro e faço tanto ?

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

TRIPLO V
Não tenho o hábito de falar aqui de outros sites ou blogs, mesmo quando incluem colaboração ou trabalhos meus, que é afinal o objectivo de O CONTRÁRIO DO TEMPO: ser uma espécie de “semanário” daquilo que vou fazendo por aqui e ali.
No entanto a Maria Estela Guedes (agora com a inestimável colaboração do Floriano Martins nesta nova série da Revista TIPLO V) tem feito uma louvável divulgação de inúmeros escritores, pintores e não só, com colaborações que primam pela qualidade.
Sempre admirei a persistência e o empenhamento da Estela com o desgastante esforço que é manter uma revista digital como o TRIPLO V, com interessantíssimas matérias que vão desde as artes às religiões, passando pelas ciências.
Neste terceiro número da nova série colaboro com alguns visuais aos quais a Maria Estela Guedes chamou de “Diamantes”. Título adequado, até porque esses poemas foram realizados em Diamantina, uma cidade no interior de Minas Gerais, durante o Festival de Inverno da U.F.M.G., em 2006.
Como esses visuais são pouco conhecidos, deixo o endereço que leva directamente à “minha página”. Depois, a partir dela, podem descobrir todo o restante TRIPLO V: http://revista.triplov.com/numero_03/Fernando_Aguiar/index.html
Fernando Aguiar, "Calligraphy", 2006

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

SONORITÉS
O Festival “SONORITÉS #5 – DU TEXTE AU SON”, realizou-se em Montpellier entre os dias 6 e 9 de Outubro em vários espaços desta tranquila e bonita cidade do sul de França: Centre Chorégraphique National, École Supérieure des Beaux Arts, Théâtre Universitaire Paul Valéry, Catedral Carré Sainte Anne e na galeria Kawenga - Territoires Numériques, onde participei num debate sobre “La Fragilisation dês lieux expérimentaux”, com poetas e músicos de diversos países e coordenadores de espaços culturais franceses.
Conforme o título do Festival indica, todas as intervenções estiveram relacionadas com os diferentes tipos de sonoridades, interpretadas por músicos e por poetas que actuaram nos espaços acima referidos, consoante o tipo de trabalho apresentado.
Assim, tivemos Steve Reich, Bernard Heidsieck, o grupo Les Impromptus, Fernando Aguiar, Bérangère Maximin, Gwenaëlle Stubbe, o trio Kernel, Rhodi Davies, Cyrille Martinez, Isabelle Duthoit, Jean-Pierre Verheggen, Jaap Blonk e a japonesa Tenko, entre outros.
SONORITÉS é um Festival anual realizado por uma pequena mas eficiente equipa de músicos, poetas e pintores, liderada por Anne-James Chaton.
Jaap Blonk
Tenko
Isabelle Duthoit
Fernando Aguiar

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

POESIA ELETRÔNICA

Jorge Luiz António escreveu aquele que será durante muito tempo a obra de referência da poesia digital – “POESIA ELETRÔNICA – negociações com os processos digitais”.
É a pesquisa mais exaustiva e completa que conheço, escrita em língua portuguesa, referente à poética realizada por meios tecnológicos desde as primeiras experiências de poesia informática do alemão Theo Lutz em 1959 até aos hipertextos mais recentes, passando por toda uma série de experiências, directa ou indirectamente realizadas e produzidas através de meios digitais. Este livro é O livro !
A obra impressa aborda questões como Poesia e Tecnologia, Poesia, Arte e Ciência, Poesia e Computadores e elabora uma tipologia dos diversos géneros poéticos abrangidos por esta temática.
A complementar as 200 páginas do livro está um CD-Rom que contém cerca de 500 páginas que desenvolvem dois dos capítulos do livro, denominações da poesia eletrônica, antologia de textos teóricos, uma antologia de poemas verbais, visuais e digitais, uma completíssima cronologia da poesia eletrônica com a reprodução de vários documentos que se referem ou contêm poesia digital, um glossário e 111 páginas de referências bibliográficas que representam, no conjunto (livro + CD-Rom) um completíssimo trabalho de investigação.
Ao longo de toda a obra o nome de E. M. de Melo e Castro é uma referência constante (é dele, aliás, o texto de introdução e o poema da contracapa do livro), sendo quase todos os poetas experimentais portugueses referidos com alguma frequência. A antologia “Poemografias – Perspectivas da poesia Visual Portuguesa” é referida algumas vezes e têm poemas no CD-Rom Fernando Aguiar, António Aragão, José de Assunção, Pedro Barbosa, E. M. de Melo e Castro, António Gedeão, Eurico Gonçalves, Ana Hatherly, Constança Lucas, Ângela Marques, Fernando Pessoa, Silvestre Pestana, Manuel Portela, Jorge M. Martins Rosa, Mário de Sá-Carneiro, André Sier, Francisco Soares e Rui Torres.
Quem quiser notícias mais actualizadas pode aceder a http://jlantonio.blog.uol.com.br/

terça-feira, 24 de novembro de 2009

BRAIN CELL Nº 751
BRAIN CELL é uma publicação atípica, mais ou menos semanal, constituída por material recuperado dos envelopes, postais, folhetos, carimbos, moradas, pequenos desenhos, pinturas, frases, fotografias, recortes, etc. que são regularmente enviados ao artista japonês Ryosuke Choen e com os quais ele compõe uma amálgama de informação visual, que é depois tratada cromaticamente por um processo electrográfico, resultando em obras com uma beleza muito própria.
Depois faz uma tiragem de 130 a 150 exemplares destas folhas com um formato A-3, numera-as, assina-as e envia as obras, acompanhadas por uma listagem com os autores dos elementos utilizados a todos os “participantes” (cerca de 50 de uma vintena de países por cada edição), exposições, revistas e a outras pessoas.
Por vezes cola vários números de BRAIN CELL de modo a obter uma superfície de maiores dimensões e sobre esse conjunto de folhas desenha e pinta com tinta da china o seu próprio perfil ou o perfil de outros artistas que ele vai visitando nas inúmeras viagens que faz por todo o mundo.
Há alguns anos esteve em Portugal, mas nessa altura também eu estava fora do país e não tive oportunidade de o conhecer pessoalmente, considerando que já nos correspondemos desde, pelo menos, 1986. Em 1987 apresentei cerca de duas dezenas destas obras no 1º Festival Internacional de Poesia Viva, que teve lugar no Museu Municipal Dr. Santos Rocha, na Figueira da Foz.
Já participei em 21 números desta peculiar publicação, sendo este Nº 751 a minha “colaboração” mais recente…

terça-feira, 17 de novembro de 2009

EM TRÂNSITO
A Fundação Portuguesa das Comunicações apresenta no Museu dos CTT a exposição EM TRÂNSITO – Arte Postal / Mail Art, comissariada por Carlos Barroco. O local da exposição não podia ter maior significado, considerando que a arte postal utiliza precisamente o correio como “média” para a concretização do acto artístico, porque sem ser mediada por este serviço, a “mail art” deixava muito simplesmente de o ser. Ou pelo menos de o ser à escala internacional, que é, aliás, outra característica da arte postal.
Segundo a história, terá sido Ray Johnson (que tem neste momento uma exposição dedicada ao seu trabalho como mailartista no MACBA de Barcelona em simultâneo com a exposição dedicada a Jonh Cage) e alguns membros do grupo FLUXUS que em 1962 terão “formalizado” este tipo de arte muito pouco formal, aliás, já que muito antes dessa data os futuristas, dadaístas e surrealistas utilizaram esta via para trocar objectos artísticos. Inclusivamente por cá aconteceu o mesmo, e a exposição mostra, por exemplo, obras de Cruzeiro Seixas anteriores a essa data.
Apesar de ainda hoje ter inúmeros adeptos e de se realizaram bastantes exposições em todo o mundo, principalmente na América latina, a “mail art” teve o seu apogeu nos anos 70 e 80, quando se multiplicaram por todo o mundo centenas de exposições organizadas quase sempre pelos próprios artistas que, nas suas cidades, apresentavam os trabalhos de artistas de outros países.
Pessoalmente acho que esse factor foi relevante para o banalizar deste tipo de arte que, por “demasiado” democrático fez com que toda a gente participasse (era aliás uma das premissas), incluindo muita gente que nunca teve ligação à arte mas que pontualmente participava numa ou outra exposição, o que acabou por nivelar por baixo muitas dessas mostras e, aos poucos, muitos pintores, performers, escultores, escritores, fotógrafos, etc. deixaram de participar, pelo menos de forma assídua, nas mesmas.
Outro factor que levou vários poetas visuais a deixarem de colaborar nas mostras de mail arte foi porque a dada altura muita gente julgava que poesia visual e arte postal eram a mesma coisa o que, obviamente, nunca foi. Mas a confusão generalizou-se, e isso também fez com que muitos poetas visuais se afastassem da “mail art”.
Voltando ao EM TRÂNSITO, a exposição está bem montada, o que permite uma leitura agradável, o catálogo excelente, e o único senão é o limitado espaço da(s) sala(s), considerando que a exposição se poderia facilmente multiplicar por 5 ou 6 vezes. Até porque muitos dos “mail-artistas” que participam na exposição têm também os seus próprios arquivos o que potenciaria uma exposição desta natureza.
Ainda assim a mostra é significativa pela variedade de nomes e pela qualidade dos objectos expostos. De entre os portugueses estão António Areal, Carlos Calvet, Cruzeiro Seixas, Mário Cesariny, Albuquerque Mendes, Ana Hatherly, António Aragão, António Olaio, António Viana, Armando Azevedo, Carlos Barroco, Carlos Ferreiro, Carlos Gordillo, Costa Pinheiro, Da Rocha, Emerenciano, E. M. de Melo e Castro, Fernando Aguiar, Francisco Relógio, Gerardo Burmester, Irene Buarque, Irene Ribeiro, João Dixo, João Prates, Joaquim Lourenço, José de Guimarães, José Mourão, Manoel Barbosa, Manuel Casimiro, Maria Soares, Rogério Silva, Romualdo, Vítor Belém, Vítor Pi e Vítor Silva Tavares.
Do estrangeiro são também bastantes os participantes, desde o incontornável Guglielmo Achille Cavellini passando por Ângela & Henning Mittendorf, Edgardo-Antonio Vigo, Serge Luigetti & Michael Groschopp, Paulo Bruscky, Monty Cantsin, até outro incontornável, o japonês Ryosuke Cohen.

Fernando Aguiar, "Arte Postal", 2005